As minhocas

Apesar de estar vazio todo o apartamento transbordava um cheiro – bolo de bagas misturadas com baunilha. Zia se recostou contra a refrigerador, o chão ainda sujo com confete enquanto sua mente repasava todas as imagens da noite.

  • Que festa tão linda. Não lembro a última vez que ri tanto por tanto tempo.

Passavam das 2300h e todos tinham voltado para casa – cada um deles com barrigas cheias de comida. Porém, a barriga de Zia apenas ficava cheia de dor de tanto rir. Era o meio do inverno quando ela celebrou seu aniversário pela 32a vez e os únicos pensamentos que dominavam sua mente eram a pergunta de quanto tempo ficaria a dor de seu abdômen, e o lembrete de que amanhã tinha que dar as graças ao padeiro pelo melhor bolo da década.

  • Essa receita do Senhor Timoteo ultrapassou minhas expectativas! Que bom que prestei atenção ao Manuel quando o recomendou.

Amanhã seria segunda-feira e tivera que voltar ao laboratorio.

  • Os bichos nao podem se cuidar sozinhos.

Zia era uma entomologista e trabalhava com ensaios de investigação para uma companhia local; desde menina adorava observar as borboletas, as minhocas e os gafanhotos. Agora se havia tornado numa biolóloga de dia, artista de noite (ensinava aulas de arte para idosos) e bailarina nos fins de semana como voluntaria numa aula para meninos com síndrome de Down. Tinha um personagem criativo que se manifestava em sua fascinação sobre cada detalhe da vida, incluindo os joelhos das abelhas.

Ninguém conseguia entender um coração tão estrangeiro como de Zia – há muitos anos atrás, seus amigos lhe deram o apelido de “Coração Selvagem.” Algo desse apelido fazia com que ela explorara o mundo como se os dias não tivessem fim e o sol nuna ía dormir. Talvez os sonhos de Zia nunca dormiam, mas ela se gostava de dormir – depois de lavar a louça tomaria um banho para se deitar quase às duas da manhã. Apesar da hora que dormia, a exploradora do mundo tinha o hábito bem formado de acordar cedo para correr pelo menos cinco quilômetros antes de entrar ao laboratório.

A moça acordou, trocou de roupas e começou sua jornada em direção ao jardim botânico. Não tinham passado sete minutos quando seu telefone interrompeu seu favorito álbum do Fernandinho. Parou de correr em frente de uma árvore com sombra ampla e pegou seu celular. Era Benjamin, o técnico de pesquisa (e seu namorado) que começou seu emprego na equipe de Zia apenas um mês depois de quando ela foi contratada.

  • Oi Benjamin, por que todas as ligações? Estou no meio de minha rotina.
  • As minhocas! As MINHOCAS. Nossa! Vím cedo ao laboratório para começar os relatórios de amanhã e as minhocas estão sobre toda tua mesa!
  • O quê?! Mas como pode ser? Quem foi o último a sair na sexta?
  • Não sei, não – mas precisas vir o mais rápido possivel, antes de que chegue o chefe! Já sabes como ele é.
  • Tá! Essa não é a melhor maneira de começar o dia, mas estou indo!

Zia colocou os fones em seus ouvidos de novo e começou a correr em direção a seu apartamento– pelo menos ia cumprir seu exercício, fosse correndo no jardim ou correndo para resgatar um milhão de minhocas. Passou por seu apartamento como um vento, demorou nada para chegar ao laboratório. A porta da entrada já estava aberta quando se aproximou.

  • Benjamin! Bejamin, onde estás? Estou cheia de suor mas já cheguei!

De uma esquina atrás de Zia, saiu o Benjamin – seu rosto branco como se tivesse visto um fantasma.

  • Aqui! Vem querida, mais rápido. Não vais acreditar o que aconteceu.

Zia escutou a voz e a seguiu como se fosse o chamado dos deuses. Entrou em seu escritório. O que aconteceu ninguém consegue entender.

–           –           –           –           –           –

            Não passa um dia em seu escritório que Zia não lembra o que aconteceu aquele dia. Cada manhã que acorda e vai embora ao jardim botânico, quando passa aquela árvore de folhas amarelas, ela lembra desse dia – o dia quando os semáforos pareciam ser lentos demais e o frio desse inverno se sentia como o verão por causa do rápido que teve que correr essa manhã. Foi uma manhã inesquecível e nunca a trocaria por outra.

  • E pensar, que desde menina fui cativada pelos bichos. Ninguém ia pensar que isso me aconteceria.

O que foi o que aconteçeu aquele dia? Bom, pois aconteceram duas coisas: uma tragédia e outra coisa bastante engraçada. Logo que Zia entrou seu escritório, encontrou se com Benjamin e as minhiocas que estavam sobre toda sua mesa – minhiocas de goma.

A tragédia aconteceu quando Zia – a especialista de todos tipos de insetos – correu ao laboratório apesar de saber que minhiocas não podem andar. O Benjamin havia estado em sua festa de anniversário, e vendo que sua querida ía ter uma noite longa aproveitou-se de fazê-lhe uma brincadeira. Aquela manhã, Zia dormiu pouco, afeitando sua habilidade que lembrar das brincadeiras que Benjamin gosta de fazer. Mas, uma coisa que aconteçeu essa manhã não foi brincadeira.

Quando Zia entrou a seu escritório encountrou a Benjamin com o rosto branco, mas branco de nervos. Ao ver a sua querida diante dele, com as minhiocas de goma sobre toda a mesa, Benjamin se ajoelhou diante de sua namorada – cheia de suor. Se ajoelhou pedindo-lhe a mão, pedindo-lhe a mão casamento.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s