Anch’io

 

POR COLIN PEDRON

Estava em um estado mental estranho. Precisava escapar de minhas circunstâncias. No entanto, não entendi exatamente que coisa me atrasou.

Assim, viajei à Itália para encontrar alguma coisa nova.  Para deixar minha companhia produtiva. Para escapar de meus amigos leais. De minha esposa que me amava. De meus filhos que me adoravam. Tudo me sufocava.

Na Itália, comecei a aprender a língua rapidamente. O trabalho de aprender uma língua nova não era muito difícil, mas me distraí suficientemente para esquecer de minha própria vida por algum tempo. A frase mais útil que aprendi foi “anch’io,” que significava “eu também.” Essa frase me ajudava a me relacionar com as pessoas italianas.

As empresas italianas me serviam perfeitamente. Com agilidade e sem preocupação, aprendi como manipular os mercados da Itália. Os negócios da Itália não eram tão supervisados como os de Portugal. Ascendia rapidamente neste mundo novo. Com minha língua proficiente e sagacidade excepcional, ganhei ainda mais dinheiro com cada transação.

Comprei uma casa grande justo fora de Milão. Essa casa somente teve um propósito para mim. Representava minha alta classe social nessa nova comunidade. A piscina era transparente e expansiva. Todas as janelas exibiam panoramas espantosos. Os tapetes eram mais macios que possa imaginar. A casa tinha dormitórios suficientes para hospedar três famílias completas. Eu somente usei um.

Dois anos depois, estava finalmente em posição de produzir a festa elegante em minha casa para as pessoas de alto prestígio em Milão. No começo, a festa pareceu ser boa e perfeita em concordância com meu plano. Todas as pessoas me cumprimentaram pelos lustres fascinantes.  Todas desfrutavam os aperitivos saborosos. Todas se vestiram em maneira extravagante para respeitar o decoro que meu evento demandou. No entanto, ninguém pareceu verdadeiramente feliz.

Comecei a sentir essa mesma preocupação antiga.  Agarrei a manga de um colega jovem que estava de pé aparte do grupo. A manga estava conectada a um paletó opulento.

— Perche non é felice, amico?

O colega mirou a minha mão, e depois a seu próprio paletó. Pareceu muito nervoso.

— Non posso ripagare questo vestiario.

Olhei em seus olhos. Ele estava dizendo a verdade. Não teve um salário suficiente para esta roupa nem esta comida. Ele continuou:

— Solamente sono qui per evadere la realtá.

Me dei conta que eu estava na mesma situação. Eu também estava tentando escapar da realidade de minha vida antiga. Não obstante, estava confundido pela sinceridade completa de meu colega. Sem pensamento, respondi com a mesma honestidade.

— Anch’io.

Não desfrutei o resto da festa. Meu momento de honestidade havia me confundido e embaraçado. Pouco tempo depois, comecei a desocupar minha casa. Todos saíram, menos as prostitutas.

Bebi muito essa noite. As memórias eram vagas. Somente lembrei um momento com alguma claridade.

A prostituta estava tirando minha camisa. Parecia-se muito com a filha de meu amigo João em Portugal.  Não. Não pode ser. A filha de João estava estudando numa universidade em Brasil, né? Mas ela pareceu tão similar . . . eu não estava seguro de onde estava . . . as mãos dela eram mais finas que as de minha esposa . . . ela estava tão similar . . . .

— Perche non é studiando? Tuo padre non sarebbe felice.

— Mio padre non é qui. Io sono separata dalla mia famiglia da molta distanza e molti anni.

— Anch’io.

Três meses depois, tudo terminou. A polícia italiana confiscou os registros de minha empresa, e a verdade sobre minhas transações foi exposta. O julgamento do tribunal chegou rapidamente e sem piedade. Recebi três anos de prisão em Itália por fraude empresarial.

Na prisão, encontrei muitas pessoas de meu mesmo caráter. Homens desonrosos e indignos. Homens egoístas e sem amor.  Homens que haviam-se sentido despreocupados com limitações normais e naturais. Finalmente, entendi de que coisa eu estava tentando escapar quando fugi à Itália. Estava fugindo de mim.

Solo io.

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